Entenda como identificar os sinais da violência psicológica e dos comportamentos tóxicos
Quando ocorre o relacionamento abusivo?
As fases de um relacionamento amoroso abusivo costumam seguir um ciclo que se repete e tende a se intensificar com o tempo. Embora cada relação seja única, especialistas em Psicologia e violência doméstica descrevem padrões muito semelhantes.
Aqui estão as etapas mais comuns, explicadas de forma detalhada:
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Idealização (ou “Lua de Mel” inicial)
- Também chamada de love bombing
- Há afeto intenso, elogios, atenção excessiva
- Parece “o companheiro perfeito”
- Há uma sensação de conexão rápida e profunda
- Presentes, declarações, promessas e uma rotina de encantamento
- Objetivo: criar laços emocionais fortes e dependência afetiva
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Instalação do controle (iniciais sinais de abuso psicológico)
Os comportamentos tóxicos começam de modo sutil:
- Críticas leves disfarçadas de preocupação
- Opiniões sobre roupas, amizades, hábitos
- Requisição de mais tempo, mensagens constantes, ciúme apresentado como “cuidado”
- Testes de limites: pequenas agressões verbais, manipulação emocional
- É uma fase confusa, porque a vítima ainda está envolvida pelo momento de idealização
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Escalada da tensão
A violência psicológica se torna mais frequente, com:
- Explosões de raiva
- Chantagem emocional
- Silêncio punitivo
- Controle financeiro, social ou digital
- A vítima tenta “pisar em ovos” para evitar conflitos
- Sensação comum: ansiedade constante e culpa
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Ato abusivo (explosão)
É quando o abuso se manifesta de forma clara, marcando o ponto alto da violência no ciclo. Pode ser:
- Agressão verbal intensa (xingar, humilhar)
- Agressão psicológica grave, com ameaças, gaslighting (manipulação com distorção de fatos e dados)
- Agressão física
- Agressão sexual
- Destruição de objetos ou intimidação
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Arrependimento e reconciliação (nova “lua de mel”)
Depois da explosão, a pessoa abusadora é capaz de ter as seguintes atitudes:
- Pedir perdão, chorar
- Prometer mudança
- Voltar a ser carinhosa, dando presentes e fazendo promessas
A vítima, emocionalmente fragilizada, muitas vezes acredita na mudança.
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Calmaria (fase de aparente normalidade)
O conflito parece ter terminado, o agressor mantém um comportamento aceitável, a vítima sente alívio e esperança. Mas essa calmaria é temporária: o ciclo tende a recomeçar, geralmente de maneira mais intensa.
As etapas se repetem, pois esse tipo de relação cria dinâmicas de dependência emocional, culpa, medo e esperança, que dificultam a percepção do abuso e a saída do ciclo vicioso.
Como identificar uma relação tóxica?
Fique atento aos sinais de alerta:
- Sentir medo de desagradar o tempo todo
- Sentir-se culpado frequentemente
- Evitar contar certas coisas para amigos/família
- Perceber que perdeu autonomia
- Achar que precisa “merecer” amor e paz
- Ouvir constantemente que é “sensível demais”, “louco”, “dramático”
10 sinais de abuso psicológico
Confira os principais comportamentos de um relacionamento abusivo:
- Abuso físico, incluindo empurrar e bater
- Abuso emocional, incluindo comentários que fazem alguém se sentir inútil, constantemente criticado ou manipulado
- Assédio, incluindo pressão indesejada ou intimidação
Dessa forma, se você está questionando a saúde do seu relacionamento, esses comportamentos podem indicar abuso, mesmo sem violência física.
Identificar sinais de um relacionamento tóxico pode ser difícil porque muitas atitudes surgem de forma sutil, se intensificam aos poucos e são facilmente confundidas com “ciúme”, “cuidado” ou “personalidade forte”.
A seguir, estão sinais claros e específicos (emocionais, comportamentais e práticos) que ajudam a reconhecer quando a relação deixa de ser saudável:
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Controle disfarçado de cuidado
O padrão é o parceiro tentar regular sua vida, decisões e espaços.
Alguns exemplos:
- “Me avisa quando chegar, quando sair, quando falar com alguém”
- “Não quero que você use isso, só estou cuidando de você”
- Questionar excessivamente suas amizades e rotinas
- Pedir senhas ou verificar celular
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Ciúme excessivo e invasivo
Tudo vira motivo de desconfiança. Veja exemplos:
- Interrogações constantes: “Quem é esse?”, “Por que demorou para responder?”
- Acusações sem fundamento
- Desconfiança persistente, mesmo após explicações
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Manipulação emocional
Aqui, você frequentemente duvida de si mesmo. Confira exemplos bem concretos:
- Gaslighting: fazer você questionar a própria memória ou sanidade: “Você inventou isso”, “Nunca aconteceu”, “Você está louco”
- Culpa: “Se você me amasse, faria do meu jeito”
- Chantagem emocional: “Se você terminar comigo, não sei o que vou fazer”
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Críticas constantes e humilhações sutis
Sua autoestima começa a cair sem você perceber, com “brincadeiras” que machucam, comparações com outras pessoas e comentários sobre sua aparência, peso, carreira ou família.
Isso tudo faz você ficar cada vez mais sozinho. O parceiro passa a:
- Criticar seus amigos (“eles não prestam”)
- Resmungar quando você quer sair
- Criar conflitos toda vez que você tem planos
- Fazer você se afastar da família para “evitar brigas”
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Limites ignorados
Quando suas necessidades não são respeitadas:
- Você diz “não gosto disso”, mas a pessoa continua fazendo
- O parceiro decide sobre coisas que afetam você sem consultar
- O companheiro pressiona para intimidade quando você não quer
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Oscilações emocionais extremas
Em um dia, o parceiro te trata como amor da vida, no outro te destrata. Atos de carinho são seguidos de frieza brusca e ocorrem discussões explosivas por motivos mínimos.
Desse modo, você vive em tensão, “pisando em ovos”.
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Falta de responsabilidade pelos próprios erros
A pessoa nunca se responsabiliza pelo próprio comportamento:
- Sempre tem uma justificativa externa
- Culpa você por tudo: “Você me faz ficar assim”; “Eu só fiz isso porque você provocou”
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Roubo de energia emocional
A relação drena sua paz. Você percebe que:
- Está sempre cansado
- Está sempre se explicando
- Precisa cuidar do humor do outro
- Parece “mais simples” fazer tudo para evitar conflitos
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Medo
Talvez seja o sinal mais forte. Se você sente medo de falar, de ser honesto, de desagradar, de terminar, é um alerta vermelho.
Perguntas rápidas para identificar
Se você responder “sim” a várias delas, há forte indício de toxicidade:
- Você sente que perdeu autonomia?
- Você se sente culpado por coisas que não são sua responsabilidade?
- Você se sente menos confiante do que antes de entrar nessa relação?
- Você sente que está sempre “pisando em ovos”?
- Discussões triviais viram tempestades?
- Seu parceiro ignora seus limites ou sentimentos?
Quais são os problemas de saúde provocados pelo ciclo?
Quando se fala em relacionamento abusivo, muitas vezes se pensa em agressão física. No entanto, o comportamento pode tomar outras formas, como violência psicológica, sexual e financeira, sendo mais difíceis de identificar.
O Brasil ocupa o 5º lugar no ranking de feminicídio, de acordo com a ONU Mulheres. Além disso, 3 em cada 5 mulheres sofrem violência em um relacionamento afetivo.
Esse é um dos fatores que, obviamente, aumenta o risco de transtornos mentais como ansiedade e depressão. Um estudo realizado pela Universidade de Queensland, na Austrália, constatou que vítimas de relacionamento abusivo têm duas vezes mais chances de desenvolver os dois distúrbios quando comparados a quem não sofreu abusos.
Os pesquisadores acompanharam mais de 1500 participantes durante nove anos. Assim, as mulheres que foram vítimas de relacionamento abusivo aos 21 anos apresentaram maior probabilidade de desenvolver depressão aos 30 anos, enquanto as vítimas do sexo masculino apresentaram maior probabilidade de ter transtorno de ansiedade. O número de homens e mulheres afetados foi igual.
Uma relação abusiva pode ter diversas consequências na vida da vítima, incluindo problemas financeiros, sentimento de vergonha da situação e até, em situações mais graves, intenções ou tentativas de suicídio. Essa experiência também consegue desencadear compulsão, transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), crises de ansiedade, ataques de pânico e anedonia (perda de interesse em praticar atividades antes prazerosas).
É importante ter em mente que conflitos e problemas são parte de praticamente todas as relações amorosas, porém é fundamental estar atento para quando as consequências se intensificam de tal forma que a saúde física e mental é afetada.
A privação, baixa qualidade ou excesso do sono geram efeitos hormonais que afetam diferentes sistemas, incluindo problemas alimentares, dependências e abusos de substâncias como drogas e álcool, disfunções gastrointestinais (náusea, vômitos, diarreias), condições dermatológicas e até problemas ortopédicos e posturais.
O que fazer em caso de suspeita de abuso?
Ninguém sai de uma relação abusiva sozinho, contar com apoio emocional e informação faz diferença.
Veja quais são os canais oficiais úteis no Brasil:
- Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher
- Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM)
- Defensoria Pública para orientações jurídicas
- Centros de Referência da Mulher em várias cidades
Como recomeçar após a separação?
O processo de recomeço não é uma receita fixa. Não há uma maneira errada ou correta, pois cada pessoa enfrenta o fato de forma individual.
Tampouco existe um prazo definido para a superação. É indicado vivenciar a separação no seu ritmo, com paciência, sem se sentir pressionado e sem se comparar com os outros.
É o momento de procurar outras formas de aliviar a tristeza e a apatia, como ocupar o tempo e a mente com atividades que deem prazer, estar entre amigos e familiares e falar o que sente. Isso ajuda aceitar o fim e encontrar um novo significado para a vida seguir adiante.
Para evitar o estresse, é bom realizar atividades relaxantes, como conversar com amigos, praticar atividades físicas, passear, meditar, dedicar-se a hobbies ou simplesmente se permitir descansar, para diminuir a produção de hormônios do estresse, como cortisol e adrenalina.
Momentos de lazer também promovem a liberação de endorfinas pelo corpo, que são substâncias que dão sensação de bem-estar, chamadas de analgésico natural. Além disso, pessoas que sofrem muito com o estresse também podem fazer psicoterapia, de forma a identificar formas de aprender a lidar com as emoções desafiadoras.
Alguns remédios naturais conseguem reduzir a sensação de ansiedade e outras reações negativas, como o chá de camomila ou de passiflora, por exemplo, por terem propriedades calmantes ou relaxantes.
Quais são as dicas para superar o trauma?
A primeira coisa importante é reconhecer que a dor faz parte do processo de amadurecimento e de cura, mas é interessante adotar estratégias que ajudem na recuperação emocional. Tentar controlar os sentimentos ou se pressionar para “superar rápido” não é natural. Lamentar, chorar, sentir tristeza ou raiva faz parte do processo.
Evite se isolar completamente do convívio com amigos e familiares, pois isso é capaz de potencializar a recuperação emocional. Conversar e compartilhar sentimentos com pessoas próxima, de confiança, traz apoio, consolo, companhia e possibilita enxergar a situação de outros pontos de vista.
Uma das indicações é justamente manter contato com pessoas queridas, participar de atividades coletivas ou até se envolver em projetos voluntários, pois o isolamento prolongado tende a intensificar a tristeza. Outras medidas saudáveis são cuidar da rotina de sono e da alimentação, pontos cruciais para fortalecer o corpo e, por consequência, a mente e a autoestima.
Quando buscar ajuda de um profissional de saúde mental?
Caso você sentir que não consegue lidar sozinho com a situação, procurar um psicólogo não é nenhum sinal de fraqueza, mas que está focado em cuidar da sua saúde e não sofrer riscos.
A psicoterapia conseguirá acelerar o processo de cura, focando em autoconhecimento. Buscar a ajuda de um profissional da área para obter estratégias de enfrentamento é bastante aconselhado.
Procure cuidar da sua saúde mental com a Vale Saúde. Encontre um psicólogo ou psiquiatra perto de você. Saiba mais!
Referências
Tribunal de Justiça do Estado do Paraná
Livro As 4 fases do Relacionamento Abusivo (Roberta Martins)
Sociedade Brasileira de Psicologia
Associação Americana de Psiquiatria – DSM 5 – Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais: https://membros.analysispsicologia.com.br/wp-content/uploads/2024/06/DSM-V.pdf
Revista Interamericana de Psicologia

Escrito por Vale Saúde
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