Qual é a diferença entre personalidade antissocial e sociopatia?
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Os termos são usados como sinônimos para um padrão de comportamento, mas só o primeiro é um diagnóstico clínico
Relação entre os dois conceitos
Além da dificuldade de se enquadrar em regras sociais, há falta de empatia, ética ou mesmo respeito pelos outros. No campo da saúde mental, “personalidade antissocial” e “sociopatia” não são termos equivalentes do ponto de vista técnico, embora sejam frequentemente usados como sinônimos no senso comum ou até mesmo em guias de comunicação sobre o tema, como o glossário de saúde Meu Einstein.
A principal diferença está no estatuto diagnóstico e no uso de cada conceito. Do ponto de vista médico, todo indivíduo chamado popularmente de sociopata pode se enquadrar no diagnóstico de Transtorno de Personalidade Antissocial (TPAS), mas nem todo paciente com o distúrbio se encaixa no estereótipo de “sociopata”. Ou seja, sociopatia funciona mais como um rótulo explicativo informal, enquanto o TPAS é um constructo diagnóstico estruturado.
Resumindo: personalidade antissocial é o diagnóstico oficial; já sociopata é o termo popular e descritivo, sem validade formal na área de saúde mental. Ambos descrevem padrões de comportamento antissocial, mas apenas o TPAS tem critérios clínicos estabelecidos.
É preciso ter cuidado, porque o uso impreciso desses termos contribui para confusão conceitual, estigmatização social e até psicofobia.
Vamos nos aprofundar mais neste assunto? Siga a leitura!
O que é o Transtorno de Personalidade Antissocial?
O Transtorno de Personalidade Antissocial (TPAS) é um diagnóstico formal reconhecido pelos principais manuais psiquiátricos, como o DSM-5-TR (Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais) e a CID-11 (Classificação Internacional de Doenças).
Confira as principais características do distúrbio:
- Padrão persistente de desrespeito e violação dos direitos dos outros
- Impulsividade e dificuldade de planejar a longo prazo
- Engano e manipulação frequentes
- Baixa empatia e ausência de remorso
- Comportamentos irresponsáveis, inclusive financeiros e profissionais
- Histórico de transtorno de conduta antes dos 15 anos
- Diagnóstico fechado apenas a partir dos 18 anos
A personalidade antissocial é um padrão estável de funcionamento psíquico e comportamental, geralmente observado ao longo da vida adulta.
O que é a sociopatia?
Sociopatia não é um diagnóstico oficial nos manuais atuais. O termo é mais utilizado de forma popular e descritiva, e, em alguns casos, para contextualização histórica ou acadêmica.
Em linhas gerais, “sociopata” costuma ser usado para descrever indivíduos com traços antissociais cujo comportamento estaria mais associado a fatores ambientais e sociais, como:
- Violência na infância
- Negligência emocional
- Ambiente de exclusão social
- Experiências traumáticas repetidas
Saiba as características comumente atribuídas à sociopatia:
- Dificuldade em seguir normas sociais
- Comportamento explosivo, além de impulsivo
- Relações interpessoais instáveis
- Capacidade de vínculo emocional limitada e instável
- Maior reatividade em comparação ao estereótipo do “psicopata”
Diferença em relação à psicopatia
É importante distinguir sociopatia de psicopatia, embora a segunda também não seja um diagnóstico formal. A diferença principal estaria na descrição comportamental entre os perfis individuais: sociopatas seriam mais impulsivos; enquanto os psicopatas tendem a ser mais calculistas.
O termo “psicopata” é um constructo conceitual usado em avaliação forense (relacionado a crime e ao contexto jurídico) e está associado a:
- Frieza emocional mais acentuada
- Ausência quase total de empatia
- Alto grau de manipulação
- Planejamento e controle comportamental
Como é o tratamento do transtorno?
O tratamento do Transtorno de Personalidade Antissocial (TPAS) é um dos maiores desafios da saúde mental. Não há um modelo único nem expectativa realista de “cura”, mas existem estratégias terapêuticas baseadas em evidência que podem reduzir danos, melhorar funcionamento social e diminuir comportamentos de risco.
Ou seja, é possível tratar o TPAS, porém de forma limitada. A motivação costuma ser externa: vir por ordem judicial, a pedido da família ou por necessidade profissional para não atrapalhar o desempenho e as oportunidades de trabalho.
Antes de qualquer técnica, alguns princípios são fundamentais: o tratamento é longitudinal, não episódico. O objetivo é focado em modificação comportamental e manejo de risco.
A relação terapêutica deve ser clara, estruturada e com limites rígidos. Intervenções isoladas têm baixa eficácia; o ideal é que elas sejam multidisciplinares e integradas.
Abaixo, confira as opções clínicas:
Psicoterapia
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): é a abordagem com melhor evidência para TPAS, funciona melhor em contextos estruturados (prisões, clínicas, programas obrigatórios) e tem como focos centrais:
- Reconhecimento de padrões de pensamento distorcidos
- Controle de impulsividade
- Desenvolvimento de habilidades sociais
- Antecipação de consequências
- Treino de resolução de problemas
- Terapia Dialético-Comportamental (DBT):especialmenteútil quando há impulsividade grave, agressividade, comorbidade com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) ou abuso de substâncias.
A abordagem trabalha:
- Regulação emocional
- Tolerância ao estresse
- Controle de comportamentos explosivos
- Psicoterapia psicodinâmica:com uso cauteloso, é indicada em casos selecionados, porém exigindo um terapeuta experiente, e o benefício é limitado e lento.
Focada em:
- Reconhecimento de padrões relacionais
- Responsabilização
- Redução de acting out (atuações, encenações)
Medicação
Não existe medicação específica para TPAS, mas fármacos são usados para sintomas-alvo.
- Estabilizadores de humor: como valproato, carbamazepina e lítio (em casos específicos) reduzem impulsividade e agressividade
- Antipsicóticos atípicos: risperidona e quetiapina em doses baixas, para agressividade grave ou irritabilidade
- Antidepressivos: Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS) conseguem ajudar no controle comportamental e são úteis quando há comorbidades como depressão, ansiedade e impulsividade (lembrando que a medicação não muda traços de personalidade, apenas reduz riscos)
Tratar comorbidades
Esta medida é essencial. Sem tratar comorbidades, o tratamento do TPAS tende a fracassar.
- Transtornos por uso de substâncias: programas específicos de dependência química, redução de danos e monitoramento contínuo
- Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH): o tratamento adequado pode reduzir a impulsividade e condutas antissociais secundárias
Intervenções sociais e institucionais
- Programas estruturados: como programas de justiça terapêutica, medidas socioeducativas e ambientes ocupacionais altamente normatizados, com regras claras, consequências previsíveis e supervisão constante
- Envolvimento familiar: com cautela, psicoeducação e estabelecimento de limites, evitando reforço de comportamentos disfuncionais
Terapias sem estrutura, abordagens excessivamente empáticas sem limites, promessas de mudança profunda ou “cura”, psicoterapia isolada sem controle de risco e medicalização indiscriminada não funcionam e são eticamente questionáveis.
O prognóstico é reservado, mas não invariável. A melhor resposta ocorre quando a intervenção é precoce, há menos traços psicopáticos, existe estrutura externa consistente e as comorbidades são tratadas adequadamente.
Com a idade aumentando, alguns comportamentos tendem a diminuir, especialmente a impulsividade, como ocorre na Síndrome de Borderline.
A psicoterapia estruturada conduzida por psicólogo concomitante à medicação sintomática prescrita e monitorada por psiquiatra, aliadas à intervenção social, compõem o modelo mais eficaz. O sucesso se mede por redução de danos, não por mudança profunda de personalidade.
Quando buscar ajuda de um profissional de saúde mental?
Se os sintomas e características citadas acima são constantes, duradouros e exagerados em você ou alguma pessoa próxima, é hora de buscar auxílio para obter estratégias de enfrentamento e tratamentos adequados para manejar esse perfil emocional.
Em algumas situações, crises de ansiedade, ataques de pânico, tristeza constante, anedonia (perda de interesse em praticar atividades antes prazerosas), apatia, postura depressiva, isolamento social ou outras reações preocupantes que interfiram significativamente na sua vida, é necessária a ajuda de um profissional da área.
Procurar um psicólogo não é nenhum sinal de “loucura”, mas que você está cuidando de sua saúde mental e se importa com o bem-estar das pessoas que lhe rodeiam. A psicoterapia promove autoconhecimento e mostra ferramentas para lidar com certos padrões de comportamentos.
Procure a ajuda necessária para a sua saúde mental com a Vale Saúde. Encontre um psicólogo ou psiquiatra perto de você. Saiba mais!
Referências
Associação Americana de Psiquiatria – DSM 5 – Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais
Instituto de Psicologia Aplicada
Revista Interciência

Escrito por Vale Saúde
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